Academia Tricordiana de Letras e Artes - ATLA

Espaço de intercâmbio e difusão cultural, organizado a partir dos membros integrantes da Academia Tricordiana de Letras e Artes de Três Corações, Minas Gerais - Brasil. Canal interativo de comunicação e expressão, aberto para estudiosos e amantes da

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Terra Blog

Arquivo de: Junho 2008, 23

23.06.08

FEVEREIRO E OUTRA TARDE DE JANELAS AZUIS

   


    O último dia do horário de verão brilhou repentino através do vento. Tocou meu rosto, como um pensamento que me invade, mas por fora. Pude senti-lo pairando sobre a camada da pele. Sussurrando através do vento. Pensamentos ao alento. E memórias. A última tarde, do último dia, do horário de verão, daquele início de ano.
    Caminho naquele ginásio, eu sei, na pista de corrida, as crianças, as garotas jogando futebol no campo. Futuro do país. Dizem que agora iria ter o nome de um jogador famoso que havia nascido aqui. O ginásio. Isso não é tão importante. As crianças, sim.
    Caminho, digo, escorro pelo chão de Três Corações. Evaporo, moro e morro. Vejo as casas e a igreja. As pedras no leito do rio. Até o fim do ano, nenhum momento como agora, despede-se o sol daquele jeito que só em novembro. Uma última vestimenta antes do anoitecer, cobrindo o corpo de dourado e vermelho. Eu já sinto saudade.
    Redescubro o prazer de ficar parado, deitado ouvindo música. Qualquer coisa jazz folk shoegazer gospel. A criatividade vem primeiro da alma. Toca o ouvido. Mas, no entanto, me contento com o ruído das ruas, das pessoas ao longe, indo lentas cumprir seus compromissos. Bíblias nas mãos. Menino de boné e sandálias, contemplativo na garupa da bicicleta. Mãozinhas de criança no beiral da ponte, e cabelos anelados balançando sobre a pequena cabeça infrene. Pai e mãe, família. Fotografia instantânea, parecendo tão antiga. Uns quatro mil anos, talvez mais. Como agora, sete horas às cinco, só no abafado novembro. Deitado ali, eu já sinto saudade.
    Penso que, ao morrer, será assim, simples, como uma folhinha verde entre a ramagem e a grama. Passa o tempo, passatempo. Tudo como um grande sono, cercado de mistério. Tudo podendo acontecer no espaço de uma janela azul aberta, quando você é... quando você é um apreciador de entardeceres.

“Observai como crescem os lírios do campo...”(Mt.6.28)
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Roberto Ferreira, cristão, escritor tricordiano membro da ATLA.


Crônica publicada no Jornal FOLHA DO SUL – Junho/2008

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