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Acadêmicos Roberto Ferreira e Ricardo Marcato na cerimônia de posse - 2007
Espalham-se as flores e a cidade

Noite de lançamento - Março 2004 - "Deixe Ser":Poemas de Ricardo Marcato e Roberto Ferreira.

Tomada de posse de novos acadêmicos - Ricardo Marcato - 2007

Tomada de posse de novos acadêmicos - Luiz Sérgio - 2007
Fotos: Roberto Ferreira
Paulo César de Barros recita texto de Ilze Garcia-Noite de lançamento/Casa Cultura
Reunião 11.06.08
Reunião 11.06.08
Paulo César de Barros (momento de Sarau-Centro de Referência do Professor)
Fotos: Roberto Ferreira

“De repente um leão novo, rugindo, saiu-lhe ao encontro” (Juízes 14.5).
Falamos. Falamos sobre muito. Conversando com amigos, durante toda a tarde. Imaginando a possibilidade de alguém estar lá em cima, em uma varanda, olhando o infinito e pensando em nós. Sabemos que não é assim, desse modo distante. Falamos sobre acampar na empresa e estar livre só no domingo, que passa tão depressa. Sobre o feriado de sexta-feira da paixão. Às seis horas a cidade foi escurecendo e deu uma sensação de tristeza. Do tipo que anuncia o inverno, do tipo em que aqueles dias de viver suave, justamente eles, se recolhem mais cedo, na neblina lenta.
Falamos sobre o rock ter mentido – o mundo não mudou!!! –, enquanto ouvíamos aquelas canções dos anos 80. Ao som daqueles discos de vinil de gélidas bandas britânicas e suas feições inspiradas no expressionismo alemão do início do século passado, uma conversa sobre envelhecer. Mensagens fortes, como a de Tiago na epístola da falibilidade dos projetos humanos. Verdades fortes. Ainda agora, o ponteiro do relógio falou alguma coisa, e soa como um domingo de manhã escoando em ecos de um alto falante distante. Vai cidade, vai cidade, vai. Dentro de um aparelho na estante.
Falamos sobre teatro, as pessoas cheias de idéias. Sobre o trabalho, e as pastas na mesa do Ricardo Marcato. Leões no campo de batalha. Derrotá-los, sim, aos bocados.
Provei muitos cafés expressos no Dezembro nublado. E falei com o rapaz do balcão sobre o calor, as oito horas o sol deixava o dia esgotado, e não se consegue dormir em noites assim, quentes como nunca.
Eu me lembrei do Carnaval, e de como a locadora era importante naqueles dias de músicas ruins. Nos plantões do Armazém da Cultura, as prateleiras, de repente, podem lhe surpreender. Alguém havia comentado sobre a violência na cidade, sobre a falta de dinheiro, trabalhar pra comprar uma casa. Eu mesmo falava disto com o Renato Brito. Sobre estudar e trabalhar. Deixar de escrever por um tempo. Descansar. Embora os textos estarem, na verdade, arquivados em algum lugar entre a mente e o coração. Em gestão, me disse o escritor poeta Waldyr Schubert em um ponto de ônibus.
Passagem do tempo. Nós. Pouco mais do que uma nuvem. Reclamamos bastante disto ou daquilo. Enquanto as árvores permanecem lá, entre uma cidade e outra. Cercando intactas as tímidas estradinhas entre os morros. De repente ficamos pequenos? E se eu lhe falasse sobre os anéis de Saturno! Conte-os para mim. Cante-os para mim...
Vou lhe contar um sonho que tive: caminhava eu ao lado de Neil Young, em algum lugar americano de estradas poeirentas. E em outra ocasião, trocava idéias com Jim Kerr, do Simple Minds. Trajávamos casacos pesados e ficávamos sentados numa carteira de escola, como naqueles filmes da Molly Ringwald. As coisas eram diferentes naquela época, os cortes de cabelo, os óculos, as jaquetas e os tênis. O Johnny Depp e o Pet Shop Boys. Tudo diferente, mas não melhor. Não, não era melhor.
Uma tarde com amigos. Falamos sobre dar aulas, boas aulas sem sequer ter planejado. E sobre abraçar alguma coisa. Sobre abraçar alguém. Sobre a amizade de Davi e Jônatas. Sobre ouvir passos na madrugada...quem será a esta hora? Sobre ter fé. E ajudar quem precisa. Orar com uma, duas, centenas de pessoas. Sobre como viver em Três Corações é equivalente a existir em qualquer outro lugar. Somos iguais. Em dor, ou não. Sobre o sopro ser verbo. Fôlego. Levante-se. Levante-se. Levante-se, disse a voz da vida ao preencher o jarro vazio lá em Gênesis. E viu que era bom.
Falamos sobre ter dinheiro e sentir-se só. Não ter nada e estar feliz. Andar a pé e ser pego por uma chuva de verão. Sobre tempestades, relâmpagos e seus ruídos, como os do manusear das páginas de livros. Sobre passear pela praça e ir ao banco. Ir ao cinema. Comprar pipoca, estas coisas. Sobre os automóveis na Getúlio Vargas. Sobre pianos e violinos. Correr na pista do Ginásio, pensando em Villa-Lobos. Sobre perguntar o nome de alguém. Estender as mãos. Ser forte sendo fraco. Ler um texto sobre coisas que você já sabe, mas que parecem novas. Sobre experimentar, pela primeira vez, de novo. Como aquelas músicas de dez minutos que parecem ter somente três – e você não quer que acabe nunca o momento perfeito, tão próximo da eternidade. Sobre purificar-se. Sobre ser sincero sem ter medo, e isto ser o mesmo que olhar para uma cadeia de altos montes, azuis claros e mais claros, cada vez mais claros.
Sobre como Sansão encontrou, no abatido corpo de um leão, a doçura do mel.
Falamos sobre abrir a janela: Vai cidade, vai cidade. Vai, sem problema.
Roberto Ferreira, tricordiano, cristão.
Texto Publicado no Jornal Folha do Sul-Edição 796 - Junho/2008