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Descobri que a palavra surtada na gíria de hoje significa brava, irritada, nervosa, sem paciência, irada e explosiva; atitudes estas que aparecem de forma repentina, inesperada e é uma reação de repulsa e indignação por algum fato ocorrido.
Acredito que assim como eu, existem muitas pessoas que devem estar surtando por aí; porque o cotidiano brasileiro não está nada fácil.
Não confunda surtar com estressar. Surtar é reagir de forma impulsiva e ativa; já estressar é cansar, desanimar, ficar apático, abatido, sem atitude e sem reação.
Neste mundo de pessoas estressadas, encontrar uma surtada é pura sorte! O surto pode contaminar muita gente, é como epidemia; ou seja, se muita gente ficar perto de mim, que estou surtada, e reagir da mesma forma que eu, talvez possamos modificar o mundo, ou pelo menos o nosso cantinho de atuação!
Cada vez que ouço estatísticas em relação ao Brasil, fico mais surtada ainda. Quer ver: 1) 500 crianças morrem assassinadas por mês, dentro de suas próprias casas, e ninguém divulga ou fala sobre isso. 2) O Brasil é o país que tem maior índice de crianças na escola, mas é o que tem maior índice de analfabetos. Dá para entender isso? 3) Estamos entre os três primeiros lugares do mundo em corrupção. Tenho que surtar mesmo! Arrancar os cabelos!
Quanto mais eu vejo gente nadando de braçada, mas gente eu vejo se afundando na lama! Aqui na nossa cidade então, mais parece um pântano! Cada vez que abro certos jornais encontro uma manchete esquisita! É ameaça, é baixaria, é roubo, denúncias e mais denúncias; processos; coisas vindas de pessoas que a gente jamais poderia imaginar. Bate-bocas homéricos acontecem no poder público que acabam transformando-o em "privadas", no verdadeiro sentido da palavra. Só falta dar descarga! É uma coisa horrorosa! Uma falta de classe!
Eu não quero falar mal da minha cidade porque eu amo isso aqui; mas infelizmente tem um "povinho" que eu não sei o que é que tem na cabeça e que está destruindo nossa terra; vamos surtar galera!
Professores, mostrem a realidade para seus alunos! Peguem os jornais locais e levem para sala de aula para leitura, estudo crítico, interpretação e divulgação dos fatos. Não adianta só sair no jornal porque os menos favorecidos, que deveriam, não têm oportunidade de ler. Compete aos educadores desenvolverem o senso crítico de seus alunos. Contextualize os conteúdos curriculares com a realidade local e com a realidade global. Estou louca para ver um dia os professores surtados e indignados; não resignados e "seres reclamadores" apenas. Vamos à luta! Se for preciso, sair cantando por aí: "Ah, eu tô surtado!". Igual torcida, na hora da decisão! E olha que a decisão já se aproxima!!!
(VANJA FERREIRA, mestra em educação, pedagoga, psicopedagoga, gestora escolar, docente universitária, escritora em Três Corações/MG)
FONTE: JORNAL TRÊS, Nº 3.821, 29.04.2008.

Inquieto renuncio
decifrar os rastros dos ventos,
das nuvens, das águas e das sementeiras.
Mais humano é contemplar
o vento aveludando as pedras,
as nuvens transitivas no horizonte,
as águas roçando rochedos seculares,
e as sementeiras que não se fazem frutos
em minhas mãos agrícolas.
O restante, igualmente transitório,
continua enigma
(fábulas de Deus em movimento),
nos limites dos pontos cardeais.
(Manoel Ribeiro da Costa - 1994)
Uma criança dorme
- navegante pássaro no ninho.
Estrelas vigilantes,
liturgias nas vidraças,
iluminam o sono
do infante.
Uma criança dorme
- milagre, anjo, flor
na penumbra do universo.
As mãos pequenas
sustentam o rosto
no travesseiro de paina
- sustentam fábulas,
sustentam o mundo.
Menino dando cambalhotas,
menina pulando corda;
tranças negras, pastos verdes,
balidos de ovelhas em Pasárgada.
A ternura mais pacífica,
mais aveludada e reverente
esconde-se no coração que dança
entre lençóis e lãs.
Tremem cortinas, sombras,
ramagens serenadas.
Silêncio.
Nem um som de flauta.
Uma criança dorme.
Não é uma novidade,
é um mistério.
(Manoel Ribeiro da Costa - 1993)
Nasceu em Mangaratiba, no estado do Rio de Janeiro, em 18 de abril de 1854; saiu de sua cidade rumo ao sul de Minas, vindo a ter primeiramente em Caxambu, depois em Angahy e daí para a fazenda do Capitão Antônio José Gomes de Carvalho, em nosso município, onde por alguns anos lecionou as primeiras letras aos filhos desse fazendeiro.
Em 15 de janeiro de 1877, o professor Carlos Lúcio Castex foi nomeado professor público do Império, empossado para a freguesia dos Três Corações do Rio Verde, exercendo este mister durante sete anos, inicialmente no Colégio Melo Franco; depois fundou o Colégio São Carlos.
Em 1881, casou-se com D. Maria Ximenes, filha do farmacêutico José Honório Ximenes do Prado. Deste casamento nasceram 17 filhos. Abandonando provisoriamente o magistério, passou a exercer a profissão de guarda-livros da firma do Capitão Manuel Ribeiro. Com a instalação da Comarca, em 1892, o Major Carlos Lúcio Castex exerceu por curto período de tempo o cargo de Promotor Adjunto, animando-o a ingressar na vida forense, conseguindo para tanto a Carta de Provisão, ofício que exerceu com proficiência e dignidade, durante toda sua vida. Foi construtor e chefe de obras, comerciante sob a razão social de Oscar Prado e Cia, militou também em Carmo do Rio Claro e na estação de Fluvial.
Foi fundador em 1903, do jornal "O Passageiro" e redator do jornal "A Luta". Arrendou o Hotel dos Três Corações, fundado por D. Balduina Cândida da Silva (Tia Balduina). Ocupou a presidência da Câmara Municipal em 1905, tendo a oportunidade de inaugurar o primeiro abastecimento d'água da cidade. Exerceu o cargo de escrivão de órfãos, fundou grêmios teatrais e culturais, ainda a Sociedade Dramática em 26 de agosto de 1905, compôs o drama Julieta, encenado diversas vezes com sucesso. Assim era a vida do professor, jornalista, advogado, comerciante, construtor, artista, orador, escrivão, comentarista e tantas outras coisas.
Major Carlos Lúcio Castex, fluminense, tricordiano de coração, soube honrar nossa terra como bem poucos tricordianos. Faleceu em 26 de novembro de 1917, com 72 anos de idade.
(Tricordiano - 1937)
10 horas da noite. Bar Globo. Assentados ao redor da 2ª mesa, junto ao balcão: o "teacher" Chediak, de lápis em riste, suplemento esportivo do meu "Diário de Notícias" ou do "Jornal", do Elias Alem, estendido na mesa, faz contas, alinha números e procura, afinal, um bom palpite para a próxima corrida de cavalos, no Rio de Janeiro. consta-nos, que esse nosso caro filólogo perdeu (mentalmente) quatrocentos e tantos contos, à semana passada, num malfadado páreo, quando uma eguinha tordilha "caiu por cima do pescoço", arrastando na queda os castelos e as soluções matemáticas. Também, na mesa, o burocrata Bijou manuseia uma "história da Poesia Brasileira", que me pediu emprestada por dois dias, no mês de março, se me lembro bem. Com ele acontece uma coisa digna da nossa comiseração: os médicos o proibiram assistir cinema durante à noite; e é por isso que só o vemos em matinês cinematográficas, assistindo fitas de "cowboy", triste e melancólico, em perfeito contraste com os demais assistentes, criançada alegre e folgazã. Faz pena o coitado!
Arrasta uma cadeira e chega também para o conclave o conspícuo professor Azevedo, exemplo frizante dos jovens puros de nossa terra.
Entra agora para a roda, (sem fechá-la!) aqui o seu criado Matias. Mudo o ambiente, provocando algo de brejeiro. Não gosto de sisudez. Faço juz ao epíteto de radiofusora: dou-lhes "peixinho frescos". admiração, risos, etc. Vamos por aí afora. Café - diz o Chediak. Café - aumentando a entonação. Café - já aos berros! - Também o Antônio com esse infernal alto-falante! Como novo suplício inquisitório, os proprietários do Bar Globo abrem até as grimpas a eletrola, ou colocam-lhe uns discos orientais, ouvidos pelo Antônio, Zé e compatriotas, com prazer e embevecimento, e, por nós, "cá da terra" , com um sorrisinho canalha e hipócrita de quem ouve um mau discurso de um bom amigo.
Ainda bem! O Chediak foi ouvido, pois lá vai o garçon providenciar sobre o café. Já não era sem tempo. E vai louco da vida, falando consigo mesmo: "que homem para tomar café! com outro garçon, este café levaria, como contra-peso, uma gordinha mosca. Lembrava-se ele, de uma anedota sobre um certo cozinheiro chinês...
- Oh! "Não precisamos nem olhar para trás para saber de quem se trata. É o Daniel que se aproxima com o infalível guarda-chuva enfiado no braço direito. apanha um jornal em cima da mesa e senta-se invariavelmente atrás de nós. Recusa sempre o nosso convite, no velho chavâo: "não quer tomar alguma coisa?" Sabe-se que o Daniel, como médico, é contra a venda, ou compra, de leite e café em confeitarias. Certa vez, ou vi mesmo de seus lábios, dirigidas ao seu mano Clóvis, as seguintes palavras: "Clóvis, não tome leite aqui: lá em casa tem".
A prosa agora descambou para a literatura. O Bijou faz a apologia de um tal Machado de Assis, que, segundo dizem, gostava de falar sozinho e acreditava muito em bruxaria. Pois o Bijou está seguindo o seu querido mestre! Deu agora para escrever sobre assombrações, borboletas pretas, neuróticos e outras coisas que não acredito e nem entendo. Mas... só aqui para nós: acho que isso não é machadismo, mas sim paixão, e da boa!
Bolas! Interrupção da discurseira do Bijou. Vai ele afastar-se uma meia hora do nosso convívio. Espera-o, na mesa vizinha, o Evilásio - vítima dos seus amigos que lhe comem o E do nome - para o "tête-atête" infalível, certo, chova ou faça sol, de todos os dias. Não sabemos o assunto magno e tão importante que os mesmos estão há tanto tempo procurando resolver. Presume-se, entretanto, que o Bijou esteja tomando lições de mecânica, pois ele voltou hoje para a nossa mesa, alegrinho, e mostrando bons conhecimentos sobre o ajustamento de parafuso de fenda.
- Bem! 11 horas, diz-nos o Azevedo. Está na hora de se procurar o ninho. Mas qual! Outro comentário e mais um café. Até que, por fim, aparece o Antônio sacudindo um molho de chaves, significando a ordem de retirada. Bocejando, tristes e sonolentos, vamos saindo, de jornal em baixo do braço, danados com o Antônio que nos enxota para a casa, a essas horas da noite. A prosa estava tão boa! Que vício de radiofusão!
(Benefredo de Sousa - Três Corações adentro - 1982)